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Artista Lua Negra: A Dor é a Oferenda Para Se Merecer As Marcas Escolhidas!

Artista Lua Negra: A Dor é a Oferenda Para Se Merecer As Marcas Escolhidas!

Brasil5 min Read

Seguindo a série com mulheres tatuadoras, agora vamos conhecer as dores e as delícias de uma artista negra, que faz muito mais do que tatuagem, ela realiza sonhos dos seus iguais!

Eu bem que queria que o mundo fosse inclusivo com todos, mas saindo da casinha e olhando pra várias realidades diferentes, sabemos que as coisas pra mulheres, e principalmente mulheres negras, são sempre jogadas no modo very hard da vida, e na arte da tatuagem não seria diferente. Vamos ver como a artista Lua Negra, que atende em Curitiba, dá um baile nos preconceitos pra seguir na luta por dias mais leves e melhores!

Lua Negra - luanalobo_tattooer
Curitiba

Já encontrou alguma dificuldade em conseguir local de trabalho ou preconceito em ambientes predominantemente masculinos?

‘’Sim e muita. Na verdade eu nunca passei de alguém que tirava a poeira e fazia decalques aos olhos deles. A questão de ter encontrado essa barreira no estúdio por ser predominantemente masculino eu enxergava mais a questão do silenciamento por ser mulher. Eu não tinha a consciência racial que eu tenho agora, mas eu sentia até de pessoas que vinham procurar meu trabalho. Elas queriam ver o meu portfólio para saber se eu sabia tatuar! Tanto que durante os três primeiros anos que eu tatuei, muita gente perguntava se as tatuagens que eu postava eram minhas, se era realmente eu que fazia os desenhos.''

''Você não pode ser mediana! Você tem que ser duas vezes melhor que aquele cara para você ganhar metade do que ele ganha. E sempre ter que lidar com as dicas e os conselhos, só que de uma forma arrogante, como se você fosse uma porta tapada que precisasse ser ensinada o tempo todo, porque você não sabe o que você tá fazendo. O estúdio que eu tive o primeiro contato com tatuagem na intenção de ser aprendiz, foi inevitável eu não enxergar o racismo velado porque eu nunca passei de limpar chão e hoje o estúdio aberto para aprendizes e outros tatuadores mas todos esses tatuadores são brancos.''

''Eu já me senti sem espaço em estúdio onde a maioria era mulher, eu fui barrada por elas mesmas... Com coisas do tipo... Se ela entrar eu saio! Sabe?. Um dos estúdios inclusive se interessou por eu ser mulher e ter trabalhos grandes, mas infelizmente a outra tatuadora disse que não permaneceria na equipe caso eu entrasse. Eu tive que respirar muito fundo pra não desistir, foquei nas palavras de carinho e respeito pelo meu trabalho vindo tanto de outros profissionais quanto de clientes queridos’’

O que você acha das “categorias femininas” em convenção? E também daquele velho pensamento que tatuagem de mulher tem que ser delicada?

‘’Bom eu acho que só reforça o estereótipo! Acho que isso não nos dá espaço porque a nossa luta, pelo menos a minha como uma profissional mulher e negra dentro desse contexto é que eu tenho a mesma visibilidade e direito, e que a minha competência seja validada tanto quanto a de um homem branco. Eu sinto falta de fazer trabalhos mais pesados, de fazer caveira, de fazer oriental, de fazer oldschool, de fazer trabalhos que são tidos como masculinos, ainda que eu ache que o desenho não tem gênero por conta desse estereótipo, porque essa certeza imposta pela sociedade que se ela é mulher ela vai fazer só trampo delicado, tá errada! E na real eu acho que o meu trabalho é tudo menos delicado eu tenho delicadeza para executá-lo, é diferente! Porque eu não estou cobrando nada que não me é de direito. É um espaço que eu mereço respeito e reconhecimento tanto quanto uma pessoa que tem privilégio de cor e de gênero.''

''E sobre essa separação da categoria feminina só para mulheres, além desse reforço do estereótipo, reforça a competição entre a gente porque somos mulheres mas tatuamos estilos diferentes! Eu quero competir com a pessoa que tatua o mesmo estilo que eu, não quero que essa competição seja separada pelo gênero! Eu acho que isso não agrega nada! Diferente da categoria para tatuagem em peles negras, essa categoria eu acho necessária! Eu acho que ela deveria ser um pré-requisito, uma exigência de convenção. Porque no caso da categoria pra tatuagens em peles negras, é uma ação afirmativa para incluir pessoas negras nas macas dos tatuadores! Porque a gente tem o esteriótipo de principalmente em convenção de que a pele boa para ser tatuada, sempre é unicamente a pele branca!''

''Minhas questões inclusive como tatuadora e o meu posicionamento sobre a tatuagem em pele negra foi justamente pelo fato da minha tatuadora ter dito no momento de descontração, que ela preferia tatuar o meu esposo por ele ser branco e eu fiquei com aquele incômodo na garganta, só que ao invés de ficar remoendo aquilo, a minha ação em relação a isso foi fazer por pessoas que tem a minha tonalidade de pele o que são mais escuras o que nunca fizeram por mim ou por outras pessoas negras.''

''Eu quero ser respeitada primeiro como uma profissional da tatuagem! Infelizmente no mundo que eu vivo de uma estrutura social machista, racista e com todos aqueles preconceitos que a gente já conhece, o meu gênero e a minha cor de pele vão vir na frente do meu trabalho, e é por isso que eu preciso ser sempre melhor e mostrar o melhor de mim sempre!’’

Já se sentiu ameaçada tatuando algum homem? Já sofreu algum tipo de assédio?

‘’Já fui assediada várias vezes, mas por homens que vieram fazer orçamento. Infelizmente por isso já me senti desconfortável sim tatuando homens que eu não conhecia. E já fui assediada por outros tatuadores nas redes sociais.''

Luana fez questão que puséssemos essa auto tatuagem, pois foi um rito de passagem. O desenho escolhido foi a Medusa, que nasceu da dor. E tatuar o próprio peito foi muito doloroso, mas também revigorante e foi mais uma vitória pessoal dela. Máximo respeito a essa coragem e a essa resiliência!

Como você define o seu processo de criação, trabalho e estilo?

‘’Meu processo é uma conversa longa com o cliente, não me importo de talvez passar o dia inteiro ouvindo as ideias, as histórias e até as angústias de cada um! Vou pegando as ideias e vou lapidando ao meu modo artístico. Eu aceito também que a pessoa traga ou me mande fotos de referências de outros desenhos ou tatuagens. Eu não tenho um estilo específico. Eu gosto de fazer uso de vários estilos pra poder criar algo sempre único, que vá agradar meu cliente e que eu me sinta confortável que vou fazer um trabalho bom. Eu gosto tanto de trabalhos bem pesados e usando somente preto, até aquarelas com traços mais finos. O meu trabalho é bem individualizado e exclusivo!''

Na foto acima vemos além da felicidade plena das clientes de Luana, RE PRE SEN TA TI VI DA DE! Não vamos esquecer de mencionar que Luana é uma artista completa: ela é dançarina de balé, professora e realizadora de sonhos!

Luana preferiu ser chamada de tatuadora negra.


Filipe Lopes
Written byFilipe Lopes

Editor/Produtor Tattoodo. #TATTOODO #TattoodoBR #TeamTT

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