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Troque Uma Cicatriz Por Um Sorriso: Conheçam o Trabalho Emocionante Da Tatuadora Elvira Bono

Troque Uma Cicatriz Por Um Sorriso: Conheçam o Trabalho Emocionante Da Tatuadora Elvira Bono

Brasil6 min Read

Muito mais do que uma peça de luxo e adorno corporal, a tatuagem nas mãos de Elvira ganha um sentido diferente: transformar e resgatar vidas!

Você vai conhecer agora uma tatuadora incrível que tem na bagagem um curso técnico de Enfermagem, já trabalhou na área da saúde, é formada em Artes Plásticas e em mudar a vida das pessoas pra melhor! Elvira Bono conta como se sente sendo mulher na indústria nacional de tatuagem, e como surgiu o incrível projeto ''Troque Uma Cicatriz Por Um Sorriso''

Elvira Bono

Como você define o seu processo de criação, trabalho e estilo?

''Eu diria que meu trabalho é esmerado. Gosto de criar e executar artes autorais, sofisticadas e ricas em detalhes. Trabalho com cores e estilo similar a pinturas, linhas finas e técnicas de coberturas de cicatrizes com tatuagens artísticas. Como sempre desenhei e me formei em Artes Visuais, meu processo criativo é intrínseco e constante, muitas vezes tenho como estímulo gatilhos emocionais e situações que vivencio para me ajudar a criar e produzir, procuro estudar e me aprimorar com frequência também, para não ficar muito tempo sem estimular meu lado produtivo.''

Você acha que ainda existem pessoas que confiam mais no trabalho de um tatuador, do que o de uma tatuadora?

''Acredito que o mercado ainda é predominantemente masculino, o que gera uma certa esteriotipação do que as mulheres tatuadoras fazem ou devem fazer. Não diria que é exatamente uma confiança maior no trabalho masculino e sim uma predisposição a enquadrar e associar certos estilos apenas a homens tatuadores (como o realismo ou tribais por exemplo) tendendo a estranhar quando uma mulher o executa ou até mesmo sim, preferir um colega homem para realiza-lo porque "tem mais a ver" ou "entende mais" no inconsciente de muitos clientes.

Já encontrou alguma dificuldade em conseguir local de trabalho ou preconceito em ambientes predominantemente masculinos?

''Sim, principalmente nos primeiros anos de tatuagem, como eu sou autodidata e comecei a carreira relativamente jovem eu encontrei muitas barreiras, tanto pelo gênero (porque na época não tinham muitas mulheres atuando na área) quanto pela idade. Os colegas homens não abriam espaço facilmente ou me mantinham numa posição desprivilegiada em relação a outros colegas, dando preferência de clientes aos outros tatuadores homens. Não foi fácil ir ganhando o espaço e respeito, mas hoje sinto que talvez por ter mais estrada no ramo, independência e maturidade consigo uma posição melhor e de mais equidade junto aos colegas do sexo masculino.''

O que você acha das “categorias femininas” em convenção? E também daquele velho pensamento que tatuagem de mulher tem que ser delicada?

''Acho essa categoria um desrespeito e um atraso por tudo que nós mulheres temos lutado e conseguido modificar na conduta e pensamento da sociedade. Uma categoria como essa é segregativa e não permite avaliar de verdade as habilidades das artistas. Não é uma homenagem, soa até ofensivo para a grande maioria das profissionais da tatuagem. Quanto ao pensamento que associa um tipo/estilo/temática de tatuagem a um gênero é igualmente infeliz e necessita ser desconstruindo, começando por nós mesmos do ramo, sendo difundido e explicado aos nossos clientes e seguidores nas redes sociais. São pequenos passos que futuramente farão grande diferença na liberdade de escolha e mentalidade geral.''

Já se sentiu ameaçada tatuando algum homem? Já sofreu algum tipo de assédio?

''De meus clientes não. Todos os homens que eu tatuei nesses 13 anos, sempre me respeitaram e respeitaram minha postura profissional. Já colegas da área sim, já me assediaram, fizeram piadas, comentários invasivos, o que me fez adotar uma postura muito mais dura e fechada no meio, impondo e exigindo o mesmo respeito ao espaço pessoal que eu dou.''

Como surgiu o projeto para cobertura de cicatrizes?

‘’Eu já tinha feito algumas coberturas de cicatrizes não tão sérias, como uma abdominoplastia, algumas cicatrizes de machucados, e nunca tinha me atentado em como isso era um trabalho muito além apenas da estética, eu ajudava a mudar vidas e melhorar a auto estima dos clientes. Há uns 5 anos, uma cliente minha disse que o marido dela queria se tatuar comigo, e precisávamos conversar pois ele queria cobrir uma cicatriz que o incomodava.’’

‘’Ela veio com ele até o estúdio, e quando eu olhei a cicatriz, logo vi que seria um grande desafio. Era uma cicatriz no abdomen, e era a primeira vez que eu cobriria uma marca em um cliente homem. Ela era hipertrófica, ou seja, estava mais elevada do que a pele íntegra e também estava mais escura do que o resto do corpo dele, e já estava ali há algum tempo e estava bem cicatrizada. Perguntei a ele se ele não queria fazer tratamentos dermatológicos pra amenizar o aspecto antes, e ele muito frustrado disse que já tinha feito e não tinha surtido efeito’’

‘’Ele é policial e reagiu a um assalto onde os bandidos estavam ameaçando a esposa, e levou um tiro. Com isso foi levado as pressas pro hospital e fizeram uma cirurgia nele, onde a cicatrização ficou bem aparente. Uma marca do externo até quase abaixo do umbigo dele. Na época eu ainda não usava arte digital pra me ajudar nos trabalhos, e tive que fazer o desenho usando papel vegetal. Ele queria uns cavalos, pois ele é da cavalaria montada, e uns policiais com roupa de eventos especiais e os rostos de caveira.’’

‘’Eu demorei um ano pra fazer todo o projeto e começar a tatuagem! Naquela época eu me sentia muito pressionada, não só por lidar com a expectativa dele, mas eu tomei consciência de que meu trabalho poderia mudar a vida dele pra melhor. E como eu nunca tinha pego um trabalho daquela magnitude, eu me dei mais tempo pra concluir o projeto. São vários tipos de tecidos cicatriciais, varia muito de pele pra pele, e eu tenho estudado isso cada vez mais pra me aperfeiçoar, e eu divido essas informações tanto com os clientes, e também com meus colegas de profissão pra que cada vez mais possamos entender a nossa tela de trabalho.’’

‘’No final de 2015 nós fizemos a primeira sessão da tatuagem, e eu estava com viagem marcada pra passar uma longa temporada na Espanha, minhas viagens pra lá sempre são demoradas. Eu fiz os traços e avisei que iria já sombrear a parte da cicatriz, pra já amenizar esteticamente e ver como o tecido reagiria ao pigmento. Ele era muito introspectivo e quieto, quase não falava comigo e não dava sequer um pio de dor, e quando eu terminei a sessão e ele se olhou no espelho, veio a frase que me mostrou que eu estava no caminho certo. Ele disse que não tirava a blusa nem em reuniões de família, e com os olhos marejados e extremamente emocionado, me agradeceu por eu ter mudado tanta coisa em apenas uma sessão.’’

‘’Só de lembrar disso eu me emociono (Ela respondeu nossa entrevista por áudio, e deu pra perceber pela voz que Elvira estava muito emocionada), e a partir desse cliente que eu resolvi me dedicar mais a isso, a cobrir cicatrizes. Como eu sempre trabalhei em estúdios de outras pessoas, não tinha como eu fazer um projeto exclusivamente beneficente, sem cobrar nada, mas espero que depois dessa Pandemia isso mude. Eu conversava com os donos e tentava chegar num acordo pra ajudar mais pessoas. Eu pretendo fazer esse trabalho gratuitamente em clientes que fizeram mastectomia, e fazer tatuagens estéticas como reconstrução areolar e também as tattoos de coberturas com desenhos que fluam com a anatomia do corpo.’’

‘’Eu quero abranger também marcas de auto mutilação ou de agressões, talvez fazer isso uma vez por semana, ainda não sei bem como vai ser esse meu cronograma. Quero fazer grandes projetos no Setembro Amarelo, e tudo isso vai depender de eu ter o meu espaço próprio o mais rápido possível. Percebendo o quão importante era aquilo que eu estava fazendo, comecei a entrar em páginas e sites de cirurgias, e a oferecer meus trabalhos. Pra que se a pessoa tivesse uma cicatriz que não gostasse, vir até mim pra eu poder ajudar a resolver. Nisso começaram a aparecer pessoas de outros países querendo se tatuar comigo! Sempre que eu terminava uma cobertura, as pessoas se olhavam novamente com a minha arte e sorriam e choravam ao mesmo tempo! Eram cicatrizes que não deixavam as clientes usarem um decote, um biquini ou maiô, que destruíam a auto estima delas, e que eu fazia tudo isso acabar, e elas recomeçarem uma nova vida!’’

‘’Eu vi que o sentido da minha vida, era ajudar pessoas a resgatar a auto estima, e isso ia além de apenas fazer desenhos estéticos em forma de tatuagem. Daí que veio o nome do projeto ‘’Troque Uma Cicatriz Por Um Sorriso’’. Além dos exemplos que falei, eu costumo pegar casos de erros médicos em cicatrização, peles que ficaram muito castigadas depois de alguma cirurgia. E por isso que eu quero que esse meu trabalho chegue no máximo de pessoas possível!’’

‘’Eu quero mais pra frente ministrar workshops pra passar tudo que aprendi, e venho aprendendo enquanto estudo a fisiologia da pele em sites de medicina e dermatologia. Pra mais profissionais serem aptos a fazerem trabalhos impecáveis, já que muitos tem a boa vontade de ajudar mas não sabem a técnica certa. Quanto mais informação, mais vidas resgatadas nós teremos!’

Pra entrar em contato com a Elvira, é só clicar aqui e ir direto pro perfil dela e trocar mensagem! E pra ajudar a divulgar mais ainda o trabalho lindo que ela faz, compartilhe essa matéria com seus amigos!

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